Você atua nos sinais de fumaça ou incêndios instalados? O triângulo drama nas dinâmicas profissionais

Por: Marlon Silva

Um homem olha pela janela que possui um reflexo de uma paisagem
Posted on Nov 19, 2020

O que você vai ler aqui

 

  • Mindset fixo e de crescimento
  • A Dinâmica do Drama e suas implicações na evolução das pessoas
  • As cinco técnicas para neutralizar o Triângulo do Drama


Você já percebeu que seus comportamentos e os papéis que você assume nos relacionamentos pessoais e profissionais são capazes de limitar e moldar a forma como você atua no mundo? E que essa pode ser uma armadilha que você constrói, uma barreira para o seu crescimento? 

 

Pois é sobre esse tema que vamos falar neste artigo, mais especificamente na dinâmica social denominada Triângulo do Drama. Essa dinâmica, ou modelo de comportamento social, foi proposto pelo Doutor em Medicina norte-americano Stephen Karpman, em 1968, e trata de três arquétipos que desenham toda a relação conflitiva: a vítima, o vilão e o herói. 

 

Karpman Drama Triangle


Porém, antes de explorar esse interessante assunto - que fará com que você se descubra atuando em algum destes três papéis nas mais diversas situações de sua vida - é preciso trazer informações importantes sobre a forma como construímos nossos modelos mentais, nosso mindset. 

 

Tipos de mindset 


No livro Mindset: A nova psicologia do sucesso, a PhD em psicologia do desenvolvimento Carol Dweck afirma que existem dois tipos de modelos mentais: o fixo e o de crescimento. O fixo é apegado a certezas fechadas, a uma ideia de que só existe um caminho a percorrer, de que aquilo que foi aprendido na sociedade, com a vida, com a família é uma verdade inquestionável. Esse modelo mental é resistente a mudanças e condicionado a buscar estratégias já conhecidas para lidar com todos os problemas e adversidades. 

 

Já o mindset de crescimento, ao contrário, é o forjado no prazer do aprendizado, estimulado por desafios e busca explorar alternativas a cada nova situação que se apresenta. Guiado por ele, você absorve ideias, se permite, por meio de testes, erros e acertos, a expandir sua capacidade de realização. Segundo Dweck, o nosso comportamento é resultado da combinação dos dois, cada um liderando alguma área específica da nossa vida, dependendo do contexto em que estamos inseridos. 

 

Ou seja, enquanto as áreas dominadas pelo mindset fixo são avessas a riscos e têm medo do novo, as que estão mais relacionadas ao modelo mental de crescimento têm em si a faísca da experimentação, do inventar e inovar. Diga-se de passagem, esse tipo de mindset é exatamente o que caracteriza a cultura das companhias digitais bem-sucedidas. 

 

Se você se identificou mais com o primeiro grupo quando pensou nos desafios profissionais do seu dia a dia, não se preocupe. Segundo a própria Doutora Dweck, é plenamente possível passar do mindset fixo para o de
crescimento. Aqui na CI&T, buscamos sempre propor recursos, apoiar e incentivar nossas pessoas a caminhar nessa direção. E minha experiência como coach executivo mostra que ter a consciência de que temos esses dois modelos mentais e que é possível mudar de um para outro é um primeiro passo muito poderoso para a mudança. 

 

E por que era necessário esse esclarecimento antes de entrar no tema do artigo? Porque é do mindset fixo que nasce o ciclo destrutivo de comportamentos, crenças e relacionamentos, que chamamos de Triângulo do Drama. 

 

O que é o Triângulo do Drama 


Ao estudar dinâmicas de comportamento social e situações de conflito, Karpman identificou um padrão que se repetia, a presença dos três papéis - ou arquétipos - já mencionados: a vítima, o vilão e o herói. Esses papéis estavam diretamente ligados a crenças muito arraigadas, a modelos mentais que buscavam o conforto do conhecido ao invés do pensamento mais aprofundado e criterioso, do questionamento. 

 

Vamos entender cada um deles:

 
- A vítima -  A vítima é aquela que tende a se colocar na posição de indefesa e que percebe tudo que acontece de ruim como culpa dela ou como azar direcionado a ela. Frases e pensamentos comuns desse arquétipo são: "estou há X anos na empresa e não sou promovido", “a culpa é minha”, “eu não tenho força suficiente para fazer isso", "eu sou a pessoa mal compreendida, rejeitada", "eu sou a vítima da circunstância X", "ninguém nunca reconhece o meu trabalho”. Nesse papel, em qualquer interação, a pessoa se sente incapaz de tomar decisões, resolver problemas ou enfrentar dificuldades. 

 

E além desse, a vítima assume outro comportamento, o de não ser capaz de reconhecer seu valor, o que ela faz de bom, de positivo. É a chamada Síndrome do Impostor ou da Impostora. Então, por mais que realize algo poderoso, que receba elogios ou seja promovida, ela sempre pensa que, no fundo, não merecia. Em caso de uma promoção, por exemplo, pode pensar: "ah, eu fui promovido porque não havia outra opção para a vaga". 

 

Identificada com esse arquétipo, a pessoa não consegue trazer para ela a responsabilidade, nem de resolver conflitos nem de ter valor. Então, nesse contexto, quando se fala sobre o vitimismo, está se falando sobre ownership, accountability, responsabilização pela própria evolução, pela própria jornada pessoal ou profissional. 

 

- O vilão ou a vilã - Este arquétipo é o que mantém a vítima no estado em que ela está. É quem acusa, aponta, critica, controla, oprime e acaba por exercer algum tipo de autoridade sobre a vítima. Suas atitudes e ações condizem com o mindset da vítima. Quando a vítima fala “eu tenho a culpa de tudo”, o vilão ou a vilã reforça “sim, você tem a culpa”. No caso da Síndrome do Impostor, é quem diz “se houvesse outra opção, provavelmente você não seria promovido”. Então, o vilão ou a vilã apoia o estado da vítima. 

 

Mas é importante dizer que esse arquétipo não necessariamente é assumido por uma pessoa. Pode ser uma circunstância da vida, por exemplo, que faz com que a pessoa se assuma como vítima, se sinta incapaz de se responsabilizar ou se defender. Para dar um exemplo atual, a Covid-19 tem adquirido esse significado para muitas pessoas. Elas se sentem fragilizadas, amedrontadas, e isso, muitas vezes, pode paralisá-las. 

 

- O herói ou heroína - O último lado desse triângulo é quem alivia o medo ou a paralisia que a vítima está sentindo. É quem combate a "injustiça" que está sendo cometida. É quem diz "fique aqui que eu resolvo para você". Porém, no momento em que o herói ou a heroína partem em defesa da vítima, acabam prestando um desserviço, pois tiram dela a oportunidade de desenvolver suas próprias ferramentas de combate, e o ciclo acaba se repetindo na vida dela. 

 

Uma vez que a pessoa se acomoda no arquétipo de vítima, permanecerá em uma atitude de submissão e dependência e sempre buscará seu herói ou heroína para resolver seus conflitos. Toda vez que ela se deparar com uma situação em que reconhece que existe um vilão ou uma vilã, vai recorrer a alguém para salvar sua vida. Por isso, talvez, o herói ou a heroína sejam ainda mais prejudiciais para a vítima do que o próprio vilão ou vilã. 

 

Aqui, vale uma ressalva importante: neste texto, me dedico a tratar de situações de conflito - vividas com pessoas ou em circunstâncias - nas quais a vítima tem condições de encontrar ferramentas internas para se defender. Existem os ciclos de agressão ou abuso sérios, em que a vítima pode sofrer graves danos físicos e emocionais. Nesses casos, a atitude adequada é buscar os canais devidos que possam auxiliar pessoas que tenham por função assumir a defesa da vítima. Em um ambiente corporativo, por exemplo, essa atribuição é do RH, de Business Partner ou mesmo dos canais anônimos disponíveis. A vítima não estará, nesse caso, somando um herói ou heroína à sua história, mas estará enfrentando o problema de forma correta e empoderada. 

 

Talvez, nesse momento, você esteja se identificando ou reconhecendo alguém em algum desses papéis, em diversas perspectivas, na vida pessoal ou profissional. E, aqui, é importante lembrar que o Triângulo do Drama é um jogo social que está presente em todo lugar, em qualquer contexto. E você pode, em algum momento, vivenciar o papel de vítima, o papel de vilão ou de vilã ou o papel de herói ou de heroína. 

 

Como quebrar essa dinâmica 


O Triângulo do Drama sempre inicia-se pela vítima. E aqui gostamos de dizer que, o contrário do vitimismo é o protagonismo. Então, se você se identificou com a vítima, pode mudar esse comportamento com o enfrentamento adequado. E qual seria esse enfrentamento? Temos três papéis-antídoto para os arquétipos formadores do triângulo. São eles: 

 

- O creator ou protagonista - Como já dito, o contrário de vítima é protagonista. É assumir a responsabilidade pela solução do conflito. Seja com uma conversa com o "vilão" para entender o porquê da atitude, seja se posicionando e buscando um canal de apoio quando não for possível o enfrentamento direto do conflito. O importante é empoderar-se, responsabilizar-se e participar ativamente da solução. 

 

- O challenger, desfiador ou desafiadora - Ao contrário do vilão ou vilã, o desafiador é quem traz um aprendizado. Então, no lugar de ver a situação ou a pessoa como vilão ou vilã, veja como um desafio que, quando enfrentado, trará evolução para você. Seja o de se posicionar, defender seu ponto de vista, aprender a dizer "não". O importante é buscar maneiras adequadas de enfrentamento. 

 

- O coach facilitador ou facilitadora - O herói ou a heroína soluciona o problema pela vítima, o papel de coach a provoca a buscar as suas próprias soluções e desenvolver seus próprios métodos de defesa. É o apoio para uma evolução pessoal. 

 

E, para você conseguir assumir esses novos papéis em substituição aos comportamentos já arraigados (lembre-se do mindset fixo), existem algumas técnicas muito eficazes para conseguir transformar seu comportamento e seu mindset. 

 

The Five Moves: As cinco estratégias para neutralizar o Drama 


1 - Emoção - Para trabalhar nas suas emoções de forma rápida, um segredo é mudar sua fisiologia. Alguém que está emocionalmente abatido está condicionado por uma postura. O corpo fala. Mude a sua fisiologia ou ajude a pessoa a mudar. Espreguice, tome um café, caminhe um pouco, respire com calma. Busque mudar a forma como está se sentindo por meio de ações do seu corpo. 

 

2 - Foco - Verifique em você - ou em quem quer que seja a vítima - onde está o seu foco: passado, presente ou futuro. Se está no passado, está vivenciando uma história. Se está no futuro, está vivenciando uma ansiedade. Traga o foco para o presente, que é a realidade. 

 

3 - Significado - O significado que nós damos para o que acontece ao nosso redor pauta os nossos comportamentos. Então, se eu signifiquei que uma pessoa é a vilã, eu vou agir sobre essa premissa, as minhas atitudes vão ser de que eu tenho uma vilã na minha história. Analise os fatos e descubra o real significado da situação ou ajude a vítima a fazê-lo. 

 

4 - Relacionamento - É necessário que a vítima reflita sobre como está sua relação com os papéis de herói e vilão. Qual relacionamento ela quer ou precisa estabelecer com essas pessoas. É importante ela perceber como vem alimentando essas interações para conseguir enfrentar e remediar os conflitos. 

 

5 - Baby steps - Não se deve esperar grandes mudanças de uma vez, é preciso ir devagar e sempre. Perguntar-se: o que eu posso fazer hoje para avançar? E agir em cima disso. Crie movimentos rápidos e curtos para que seja confortável realizar algo, mas o importante é FA-ZER!

 

Caso a vítima não seja você, mas você identifique esse comportamento, lembre-se, não banque o herói ou heroína, não foque no vilão ou vilã, mas trabalhe ao lado da vítima para que ela encontre seus próprios recursos. Algo que eu aprendi em meus anos de coach é que as pessoas, muitas vezes, trazem questões sobre conflitos quando o incêndio já está armado e os desgastes já estão à flor da pele. Só que quando a gente trabalha em incêndio instalado, leva-se muito tempo para acalmar o fogo. 

 

Então, é fundamental ensinar as pessoas sobre esse jogo social, sobre os arquétipos, seus antídotos e as técnicas para quebrar o Triângulo do Drama. Assim, elas já sabem levantar as mãos nos primeiros sinais de fumaça. Seja você líder ou colega de equipe observando uma dinâmica dessas se formando, antecipe-se ao incêndio e atue, trabalhe no empoderamento da vítima ou procure alguém adequado para fazer isso. 

 

Dicas para se aprofundar no assunto 


Deixo, agora, minha sugestão de dois filmes e um livro que ilustram muito bem o Triângulo do Drama. 


- Joker (ou Coringa, no Brasil) é um filme norte-americano de 2019 que descreve muito bem os três papéis formadores do triângulo. Preste atenção em como os arquétipos aparecem e se transmutam. O filme tem direção e roteiro de Todd Phillips com coautoria de Scott Silver. 


- Maleficent (ou Malévola 1, no Brasil), mais leve do que o anterior, esse filme de 2014 também mostra a dinâmica claramente. A produção norte-americana tem direção de Robert Stromberg. 


- How to break free of the Drama Triangle & Victim Consciousness é um livro de Janae B Weinhold e Barry K Weinhold que apresenta um estudo bem profundo, englobando psicologia e psicanálise.