Como manter a cultura da companhia no trabalho remoto

Por: Eveline Zanotti

Foto de uma mulher negra, de cabelos presos, de perfil, em frente a tela de um computador. Ela tem uma caneta nas mãos e escreve em um caderno aberto. Na tela do computador, estão fotos de várias pessoas em uma vídeoconferência.
Posted on Aug 11, 2020

O que você vai ler aqui:

  • Adapte-se à cultura digital
  • Dicas práticas para profissionais
  • Um olhar para o futuro

 

Estamos experimentando o trabalho remoto como nova forma de atuar. Mas, longe de ser uma escolha para a maioria das pessoas, esse modelo - que veio da necessidade urgente de afastamento social - trouxe desafios completamente imprevistos e acabou gerando impactos dos mais diversos para todos. Entre eles, os mais claros são a dificuldade de sustentar a conexão com colegas e lideranças a distância, manter a produtividade e transportar a cultura da empresa para dentro de casa

 

No ambiente físico da companhia, tudo respira a cultura corporativa. O contato com as pessoas ocorre naturalmente e as relações se criam e se fortalecem. Os espaços comunicam por meio de cores, imagens e disposição de móveis e são cuidadosamente pensados visando a promover esses encontros. Nos corredores, nas salas de reuniões, no cafezinho, as áreas convidam às trocas de ideias e aos necessários momentos de descompressão, compartilhados em meio à rotina. De uma hora para a outra, porém, não se pode mais contar com esses ambientes, símbolos e promotores físicos da cultura, nem com a presença de colegas.  

 

Como manter essa conexão cultural e as dinâmicas e práticas de encontro que apoiam o nosso trabalho no dia a dia e nosso modo de operar? Essa foi uma das grandes inseguranças da maioria das pessoas no início deste período. E tenho certeza que ainda é a de muitas.

 

Essa insegurança inicial também esteve presente para nós na CI&T. No entanto, em seguida, reforçamos a certeza de que a companhia é feita por todos nós. Nós carregamos a forma de ser e pensar da empresa, a maneira de operar e sua cultura. Essas coisas estão necessariamente conectadas. Então, o foco é o de manter a proximidade, adaptar processos do físico para o online e desenvolver e ampliar muito os nossos canais de comunicação. 

 

Porém, isso só funcionará em companhias que tiverem um ambiente voltado ao digital, ou seja, uma cultura baseada na colaboração, experimentação, aprendizado constante, melhoria contínua e comunicação transparente. Se a sua companhia não tem esse ambiente, você pode ajudar a criá-lo.

 

Hora de se adaptar de vez à cultura digital

O novo momento, mais digital do que nunca, requer pessoas e equipes que tenham autonomia para propor e realizar suas tarefas e líderes que deleguem, confiem, inspirem e orientem, sempre com clareza e empatia. Precisamos estabelecer uma cultura que siga os propósitos e valores da companhia, mas que tenha novos pilares. Que seja, sobretudo, sustentada pelo respeito, empatia, escuta, pelas trocas e pelo aprendizado. De todas as pessoas para todas as pessoas.

 

Independentemente do momento online ou da volta ao escritório, tudo será novo a partir de agora. Precisamos desapegar de métodos antigos e reaprender novas formas de atuar. Para profissionais, cabe ir além de assumir as responsabilidades por suas tarefas e por suas carreiras. Cabe aprender a trabalhar conjuntamente - mesmo de forma remota -, trocar, ensinar e adquirir os conhecimentos que o momento exija. 

 

Especialmente às lideranças, cabe (mais do que nunca!) largar a corda do comando e controle, conhecer as suas pessoas, saber do que são capazes e confiar nelas. Abrir-se para o diálogo e para orientar sem mandar, fazer pensar e não dar soluções prontas. Atribuir responsabilidades, inspirar pelo exemplo, motivar individualmente, construir e apoiar times capazes de resolver os problemas com autonomia e eficácia. 

 

De forma geral, precisamos entender que o momento é complicado de diversas maneiras, profissional e pessoalmente. Devemos ser cada vez mais profissionais no sentido de nos apoderarmos das nossas responsabilidades, assim como do nosso próprio desenvolvimento e, ao mesmo tempo, mais humanos, já que precisamos ter empatia e apoiar o outro, além de permitir que os outros nos apoiem, quando necessário. 

 

Aqui na CI&T, nossa cultura gira em torno do olhar cuidadoso para as relações humanas, para nossas pessoas individualmente e suas necessidades. A companhia como um todo - e, claro, nós da área de People - tem sempre esse olhar e a preocupação com a promoção e o fortalecimento desse clima corporativo. O que precisamos fazer, no momento, é adaptar práticas e atender às necessidades, pontuais ou não, que surgirem do novo cenário.

 

E como a companhia é formada por todos nós, um dos nossos principais movimentos foi o de estimular ainda mais as pessoas a buscar-nos, a apresentar problemas, propor soluções. Esta é uma situação nova para nós também, então, precisamos da colaboração de todos para saber como ajudar. Como resultados iniciais, podemos dizer que cerca de 98% das ações tomadas, tanto emergenciais como ainda em desenvolvimento, partiram de sugestões de nossos colaboradores e colaboradoras. Então, tenha proatividade, procure sua liderança, business partner ou outra referência que você tenha na área de pessoas da sua companhia para dividir suas ideias. Isso certamente ajudará a todos. 

 

Algumas das iniciativas que surgiram dessas trocas, por exemplo, foram o empréstimo de cadeiras, a alteração das políticas de Vale-Refeição com transferência dos créditos para compras em supermercados e a adaptação do Vale-Combustível às necessidades de cada um. Também disponibilizamos papos online com especialistas da área da saúde e nutricionista que pudessem sanar as dúvidas e apoiar as pessoas em suas necessidades, além de encontros virtuais de pais para troca de angústias e experiências. E os famosos happy hours para estimular a descompressão e o lazer entre as equipes foram ganhando contornos de acordo com as particularidades de cada grupo. 

 

Também criamos nossas próprias práticas especiais, como pesquisas para fazer mapeamento de sentimentos e sintomas, que derivaram em várias ações de caráter mais corporativo e outras que foram realizadas para atender às necessidades mais localizadas de cada time. No âmbito individual, ampliamos o caráter flexível que nos é característico, atendendo pessoas que necessitassem de apoio especial em diversas frentes, seja antecipar férias, conceder dias de folga ou flexibilizar horários. Isso foi feito caso a caso, o que já é parte natural da relação de confiança que estabelecemos entre colaborador e companhia. 

 

Como ficam o onboarding e processos de avaliação 

Outros desafios que geram grande apreensão neste tempo de distanciamento social é o momento do onboarding e dos processos avaliativos de carreira. Na CI&T, fomos pegos de surpresa em meio a um processo seletivo. Com um mês de isolamento, entraram para nossos quadros 20 pessoas só em um dia. As dúvidas eram como recebê-las, fazer com que se sentissem acolhidas, estabelecer relações interpessoais e como prepará-las. Construir relações de confiança demandam tempo e disponibilidade de todos os lados. Como fazer isso à distância? 

 

Esse é um desafio que deve ser enfrentado não apenas pela área de pessoas, por líderes ou colegas diretos de equipe, mas por toda a companhia. É imprescindível fazer com que esses novos colaboradores e colaboradoras enxerguem e vivenciem a cultura colaborativa por meio das pessoas. 

 

Assim, repensamos o nosso programa de integração para que ele se transformasse 100% online. Desenvolvemos ações para sensibilizar e preparar as lideranças e os colegas de equipe para esta acolhida. É preciso estar disponível para quem está chegando porque essas pessoas têm mais dúvidas, inseguranças e mais dificuldades no ambiente online. 

 

O que facilitou bastante este trabalho no ambiente online é que já temos estabelecido, tanto para entrantes como para os nossos demais colaboradores e colaboradoras, processos estruturados dentro dos programas de carreira. Cada um tem alguém como career advisor, seja a liderança direta ou colega do time com mais senioridade, alguém responsável por fazer o acompanhamento dessa pessoa, tornar-se esse ponto focal. 

 

Essa pessoa, inclusive, é o apoio da área de pessoas nos processos de avaliação e da expectativa de carreira, auxiliando a gerar as primeiras percepções de performance e de resultados. E com esse apoio, em especial em momentos de trabalho remoto, é mais fácil acompanhar o quanto o colaborador ou a colaboradora está conseguindo responder e se estamos conseguindo gerar as oportunidades e o campo de jogo para que ele ou ela possa se desenvolver.  

 

Essas foram as práticas que adotamos ou que ampliamos para fazer frente aos novos desafios. Porém, sabemos que nem sempre construir esses processos voltados para as pessoas e suas necessidades é tão natural nas companhias. Se esse é o caso da empresa para a qual você trabalha, que tal apresentar reflexões nesta direção para líderes ou área de pessoas? Assim, aqui, trago algumas dicas básicas para que colaboradores e colaboradoras possam inaugurar um novo olhar de cultura colaborativa e potencializar a si mesmo e colegas ajudando as lideranças a criar um ambiente mais adequado ao novo cenário.

 

Dicas práticas para colaboradores e colaboradoras

1 - Aproveite as reuniões para aprender e compartilhar - Caso não seja uma prática, proponha reuniões frequentes e breves - diárias e/ou semanais. Elas podem ajudar a diminuir as barreiras emocionais e de comunicação em relação à liderança. Além disso, muito mais do que formalidades para que a liderança saiba como caminha um projeto específico, elas devem ser entendidas como momentos para aprender, ensinar e apresentar resultados, acertos e até erros e as soluções que você encontrou ou está buscando. É importante lembrar que, especialmente no atual contexto de trabalho remoto, estes momentos serão fontes de informação sobre sua evolução profissional que ajudarão a liderança na sua avaliação de carreira. 

 

2 - Assuma o protagonismo sobre sua carreira - A sua liderança deve ter como um dos objetivos ajudar a desenvolver seu potencial, mas a responsabilidade pela sua evolução é sua. Assim como a necessidade de aprender, compartilhar conquistas, dúvidas e dificuldades e propor ideias e soluções. É preciso se empoderar, assumir uma postura de autonomia, de proposição. 

 

Cuide da sua carreira, peça feedbacks para tirar dúvidas junto às lideranças e RH sobre como seu progresso está sendo visto, o que precisa ser melhorado. Porém, antes, faça uma autoavaliação, reflita sobre pontos forte e fracos e esteja preparado ou preparada. Não haverá liderança marcando seu passo. E não esqueça que você também faz a companhia. Os resultados do seu time e da empresa dependem da sua contribuição. 

 

3 - Comunique-se - O protagonismo também é sobre você se comunicar, ter voz ativa, participativa. É fundamental ter esse espírito de compartilhar informações, de colaboração, de dividir, de trazer os problemas para mesa para que todos pensem nas soluções conjuntamente. Absorva esse mindset de construção, de construir colaborativamente. Essas características serão cada vez mais valorizadas nas companhias. 

 

Aproveite também os canais de comunicação disponíveis - ou crie um, quando necessário e adequado - para se expressar. Leve para sua liderança e RH não apenas como está seu aprendizado e o que está sendo um desafio para você, mas também ideias e práticas como as apresentadas neste artigo que podem ser úteis para todos. Isso é fundamental.  

 

4 - Apaixone-se pelos seus desafios - É bastante comum que as pessoas se acostumem ao conforto (relativo) de receber e cumprir uma agenda de ordens e metas. Mas, como já dito, o digital não é sobre isso.  E, sim, há felicidade fora da zona de conforto. Então, além de empoderar-se e assumir o protagonismo pela sua carreira, busque espaço e função que tenha a ver com seu propósito, que faça sentido para você. 

 

Crie conexão emocional com a companhia e se engaje com seus desafios. Especialmente neste momento de trabalho sem trocas presenciais e de grande instabilidade e insegurança, se você não tiver essa paixão pelo que faz, você pode, facilmente, se desmotivar.  

 

Dicas práticas para líderes no novo contexto

Não é possível pensar nos colaboradores e colaboradoras sem passar pelas lideranças. Afinal, é dessa relação que é formado o ambiente de trabalho e é pelas atitudes e pelo olhar da gestão que as diretrizes comportamentais, sociais e profissionais são estabelecidas em uma companhia. Então, vamos aqui dedicar um espaço às mudanças que líderes precisam adotar para constituir relacionamentos positivos e espaços - virtuais ou físicos - nos quais liderados e lideradas se sintam à vontade para se desenvolver e recebam estímulo para construir, absorver e manter a cultura corporativa. 

 

A primeira coisa a fazer é deixar de atuar no modo comando e controle. Por mais difícil que seja, já que faz muito sentido dentro das estruturas de algumas corporações, esse modelo de liderança é um grande sabotador em um cenário como este. É preciso construir confiança com as pessoas do seu time, aprender a delegar e dar autonomia real. 

 

De acordo com a filosofia de gestão Lean, base da nossa companhia, líder não é quem que dá as respostas, mas que forma pessoas capazes de encontrar seus próprios caminhos de solução por meio das perguntas certas. É quem constrói bases para que os times sejam colaborativos e autônomos, que ensina, que aprende, que se comunica de forma aberta e transparente, que escuta ativamente e que tem empatia. 

 

Olhar para o futuro


Apesar das dificuldades, esta é uma grande oportunidade de aprender para colaborar com a criação de ambientes mais inteligentes, flexíveis e motivadores para se trabalhar e para sermos profissionais mais engajados e lideranças mais inspiradoras. Isso porque estamos sendo desafiados e desafiadas diariamente a repensar rotinas, hábitos, crenças e até comportamentos que aprendemos nas nossas histórias de vida e profissionais. A nova realidade já nos impulsiona a viver diferente, a pensar diferente.

 

É hora de escolher diretrizes e acelerar muito a mudança - pessoal e profissional - em direção a melhorar a nossa qualidade de vida e a dinâmica das corporações. Para isso, porém, é muito importante que observar e absorver o que deu certo nesse período. O que aprendemos com tudo isso? O que nos transformou como pessoas, como equipes e como empresa? E quando a necessidade do distanciamento acabar, não volte a velhas práticas confortáveis - e estéreis - dos silos e da hierarquia verticalizada.