Como ser líder Lean e desenvolver um time de problem solvers

Por: Marlon Silva

Foto de três pessoas, vistas de cima, como se estivessem conversando em torno de uma mesa, e diante delas há um bloco de post-its, celular e canetas. No lugar da mesa há grafismos com a identidade visual da CI&T.
Posted on Jan 24, 2018

 

O ano de 2017 foi o boom da transformação digital no Brasil e no mundo, e um ano muito frutífero e de muito movimento aqui na CI&T. Mas, mais do que as habituais demandas relacionadas puramente à tecnologia - produtos, processos e ferramentas -, recebemos a incumbência de ajudar dezenas de altos executivos das maiores e mais bem-sucedidas empresas do país a fazer uma mudança cultural em suas organizações.

 

Muito conscientes de que não existe apenas um caminho para se adequar aos novos modelos de operação digital que o mercado exige, eles buscam por frameworks efetivos para empreender a jornada que leva à quebra de silos e desenvolvimento de equipes multidisciplinares e velozes.

 

 

Nós da CI&T fomos capazes de construir o nosso próprio framework, nossa jornada de transformação. Isso começou há 10 anos, quando éramos uma empresa de softwares baseada em comando e controle, e nos guiamos, por meio do Lean, a um novo sistema de gestão baseado em princípios como colaboração, inovação e aprendizado constante. Assim desenvolvemos o nosso modelo de transformação digital, o Lean Digital Transformation. Com ele temos colhido frutos incríveis.

 

Porém, temos muito claro que esta é uma jornada infinita e que não há receita de bolo universal, há um caminhar que deve ser feito por cada empresa de acordo com seu contexto e seus objetivos. O que temos feito é facilitar, orientar e aprender essa realidade, ajudando as empresas a construir o seu próprio roadmap para que consigam ver os primeiros resultados da sua jornada de transformação mais rapidamente.

 

 

Mesmo não existindo receita pronta, alguns de nossos aprendizados ao longo dos anos foram fundamentais para transformar a CI&T como empresa, mas sobretudo a mim e a todos os nossos líderes como pessoas. E neste texto trago alguns deles.

 

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Transformando-se em líder Lean

Antes de tudo é preciso que fique claro que quando falamos em transformação digital de empresas, estamos falando em transformar pessoas. E o ser humano tende a resistir à mudança. A tarefa não é fácil e impor novos comportamentos não funciona. É preciso, primeiro, mudar a experiência das pessoas no dia a dia para conseguir mudar a maneira como elas pensam. Mas, para isso, o líder deve ser o exemplo e orientar cada pessoa dentro da sua realidade.

 

Um caminho garantido é por meio de fundamentos da filosofia Lean de gestão. Porém, para se tornar um líder Lean, você deve, primeiramente, ser Lean consigo mesmo. Ninguém compra o Lean de alguém que não aplica o Lean na sua vida. Veja, você quer propor às pessoas que elas apliquem princípios para mudar a forma como atuam, como pensam. Quer que tenham espírito de colaboração, aprendizado constante, inovação. Pede que percam o medo de errar, de se arriscar. Como fazer isso sem dar o exemplo? Impossível. Você precisa aplicar o Lean na sua vida, além do seu trabalho. Precisa transformar a si mesmo e seu mindset para o Lean Thinking.

 

Os quatro pilares da liderança Lean

 

O primeiro pilar da liderança Lean é o autoconhecimento.

Quando você está à frente de um time, você é capaz de levá-lo até onde as suas crenças permitem. É comum líderes se sentirem ‘perdidos’ em relação a desenvolver pessoas, pois muitas vezes eles não têm autoconhecimento, não conhecem o que lhes motiva, o que os guia, seus modelos, suas referências, seus valores, suas aspirações e seu propósito. Sem conhecer mais sobre esses pontos e como transformá-los em alicerces para a sua jornada, provavelmente você terá dificuldade em elevar o nível da sua equipe também.

 

Quando entrei na CI&T, eu era um engenheiro de software que não identificava muito valor naquilo que fazia. Após bater a cabeça inúmeras vezes, finalmente entendi que para ser feliz onde se está é preciso se conectar com o seu contexto, com seus valores. Foi por meio da mentalidade Lean de focar naquilo que me traz valor, de eliminar desperdícios (energia, principalmente) que resolvi construir a minha jornada de transformação pessoal aqui, deixando a área técnica e seguindo uma missão que fazia mais sentido para mim: desenvolver pessoas por meio de treinamentos e coaching.

 

Mas para tudo isso acontecer, foi preciso me aprofundar no meu autoconhecimento, entender de gente para entender de mente e, assim, facilitar a minha jornada. Só assim pude apoiar outras pessoas a seguirem e identificarem as suas próprias jornadas também.

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O segundo pilar é o coaching, é aprender a desenvolver pessoas.

O coaching é um dos principais veículos e um dos mais poderosos e efetivos meios de facilitar a transformação. Mas tem que ser um coaching com foco naquilo que é melhor para o coachee, time e empresa. No nosso processo Lean de desenvolvimento de pessoas, temos um aprendizado muito forte em relação à empatia, a compreender diferenças e particularidades de cada pessoa. Não é função do coach dizer o que é bom para cada indivíduo, mas ajudá-lo a entender quais são os recursos que ele precisa adicionar à carreira pra poder se desenvolver.

 

Outro princípio do Lean que se aplica neste contexto é o sistema puxado - onde os desafios e demandas são ‘puxadas’ pelo cliente para atender às suas necessidades naquele momento. No desenvolvimento de pessoas é a mesma lógica: meu desenvolvimento tem que ser puxado por mim. As pessoas têm que entender que a carreira é delas e não do líder, do gestor, do executivo.

 

Para crescer, eu tenho que querer muito, tenho que fazer acontecer. Por isso, a nossa filosofia é que o coaching tem que ter começo, meio e fim, não dura para sempre. Por quê? Porque queremos provocar as pessoas a fazer o processo por elas mesmas e, para isso, aplicamos e ensinamos ferramentas do Lean como o A3 para que elas busquem a própria melhoria contínua.

 

 

O terceiro pilar é a busca pela melhoria contínua.

Se você não estabelecer ciclos de melhoria contínua para você, nada acontece. Se não temos o compromisso de crescer depois de cada passo dado, a tendência é voltar para o mesmo padrão anterior. E a melhor ferramenta para melhoria contínua é o feedback. Mas é preciso aprender a receber feedbacks e não cair na vitimização. Quem cai nessa armadilha entra em negação e volta para sua zona de conforto. Se a pessoa não quebra esse ciclo de alguma forma, não existe mudança, não existe aprendizado. É muito importante você sempre se dispor a dar e receber feedbacks, para o seu próprio crescimento.

 

 

O quarto pilar são as metas a caminho do objetivo.

Além de ter um norte, saber aonde você quer chegar, é preciso saber quando quer chegar lá e mapear a sua jornada de desenvolvimento. Quais são os seus indicadores pessoais? Como você sabe que está se desenvolvendo em relação à sua liderança Lean? Neste ponto, entra um dos princípios-base do Lean: o entendimento a respeito do que é um problema.

 

Para o Lean, um problema é a diferença entre onde você está e aonde você quer chegar. A grande questão é que as pessoas identificam muito rapidamente onde estão, mas dificilmente sabem para onde devem ir. Essa é a grande dificuldade. E se não há clareza a esse respeito, não há como mensurar o tamanho do gap e nem quanto tempo vai levar para chegar ao objetivo. Para alcançar o crescimento, seu estado desejado deve ser pelo menos três vezes mais empolgante do que o seu estado atual, senão você permanece onde está. Crie um objetivo que motive você a sair do seu estado atual e desenvolva métricas para avaliar seu caminhar.


 

O objetivo é alcançar a maestria com a arte do Kung Fu

Para dominar o Lean Thinking e aplicá-lo na sua forma de gerir, é preciso buscar conhecimento sempre, pesquisar, estudar e aprender constantemente.

Existem três formas básicas de aprendizado dentro e fora dos livros. A primeira é por meio de modelos: siga os mestres, líderes Lean que você admire. A segunda são as histórias, o storytelling. O termo está muito em voga no mercado, existem inúmeros treinamentos e palestras baseados em experiência de vida. Por quê? Porque as pessoas se conectam com histórias. É bem verdade que cada pessoa vai se identificar em diferentes níveis e em diferentes instâncias, mas essa identificação vai redundar em aprendizagem. E a terceira é o learning by doing. Faça, erre, faça novamente e se aperfeiçoe.

Eu aprendi muito a respeito de ser mestre em uma vivência que tive na China com a CI&T. Lá, eu descobri o real significado do conceito Kung Fu, arte marcial que se traduz como: trabalho duro e repetição para conquistar uma habilidade em alguma coisa. A expressão é utilizada para tudo o que você faz com dedicação, errando, persistindo e aprendendo até que se torne uma capacidade. Pra ser mestre em alguma coisa, desenvolva seu Kung Fu.

Porém, para poder errar, conheça os limites dentro dos quais você pode arriscar e cerque-se quem vai apoiar você. É o que chamamos na CI&T de Safety, crie seu ambiente de segurança. Na minha estratégia pessoal, o que fiz foi encontrar cinco pessoas dentro da empresa que me levantariam se eu fosse cair. Assim criei meu espaço de experimentação.

Um exemplo de construção de resultados com base em erros e acertos: há um ano, quando criamos nosso treinamento Comunicação Essencial, para estimular o autoconhecimento e melhorar a comunicação entre as pessoas, tínhamos dinâmicas de 3 horas com 6 pessoas. Depois de testar muito com pessoas do nosso time, chegamos a um formato em que atendemos até no máximo 30 pessoas, com duração de oito horas.

Hoje, as primeiras turmas estão refazendo o curso porque está muito melhor, muito diferente. Como chegamos a esse formato e esses números? Trabalho de observação, feedbacks constantes e repetição incansável testando diversas hipóteses que surgiram com esses retornos. Tanto para crescimento pessoal, como para exercer o coaching, é preciso ter abertura à massa de informação que recebemos por diversos canais para melhorar constantemente.

Fundamentos importantes para ser um líder Lean.

 

Transformando as pessoas com o Shu Ha Ri

Depois de olhar para a sua jornada de se tornar líder Lean, devemos falar sobre as particularidades no momento de buscar a melhoria das pessoas. Além dos conceitos já trabalhados, como estimular o autoconhecimento para que as pessoas possam - com a condução do líder Lean - traçar metas, objetivos e aprender a realizar o autocoaching constante, é necessário usar outro princípio que aprendi com a filosofia Lean; o Shu Ha Ri. Nosso desafio quando eu estava na China era buscar harmonia no trabalho com pessoas de culturas muito diferentes. A nossa equipe era formada por chineses, japoneses, brasileiros e russos; os choques eram grandes. Foi aí que conhecemos este conceito que é um modelo perfeito para criar a já citada empatia, a conexão e um círculo de amizade entre as pessoas. O Shu Ha Ri é dividido em três princípios-base:

 

1. Follow the Rules. Siga as regras, siga as pessoas. Se você chegar a um ambiente novo impondo a introdução de um modelo de atuação de forma abrupta não vai funcionar. Você precisa, inicialmente, seguir as pessoas. Estude o modelo delas, procure entender o mindset, fazer parte do mundo delas, seguir a cultura local. Como falamos no pilar do coaching, você precisa conhecer e respeitar.

Sabe por que é importante follow the rules? Porque o ser humano gosta de dois tipos de pessoas: aquelas que são parecidas com elas e aquelas que elas gostariam de ser. E além disso, precisamos aprender a conviver com outras pessoas, e aí o conceito é fundamental para você conseguir trazê-las para junto de você.

 

2. Break the rules. Uma vez que você acompanhou o universo da pessoa, aí sim é possível oferecer o seu ponto de vista a ela. Não substituir, mas agregar aos poucos o que vai fazendo sentido para ela conduzindo-a até seu modelo se tornar regra. É como uma dança: primeiro você acompanha, depois você conduz. Esse é o nosso modelo de transformação. Assim se formam líderes Lean.

 

3. Be the rule. Uma vez que você tenha dominado totalmente a prática é o momento de ser livre e criativo, porque o significado já está tão profundamente arraigado em você, que qualquer passo que fizer expressará a sua essência e você passará a ser respeitado também.

 

 

Por fim, é necessário dizer que a responsabilidade pela formação das pessoas - mesmo que essa jornada seja individual - é sua. Como diz o ditado “se o aprendiz não aprendeu, o mestre não ensinou”. Desenvolva o líder Lean que existe em você e conduza as pessoas a acessar recursos, ferramentas e talentos que elas têm.