Formando indivíduos e times de alta performance

Por: Tiago Augusto Varussa

Duas mulheres participam de uma reunião, uma delas faz anotações em um quadro enquanto a outra está atenta a reunião
Posted on Aug 24, 2020

O que você vai ler aqui

  • A era do indivíduo 
  • Do mindset fixo para o de crescimento 
  • Criando ambientes de alta performance 

 

 

Após 20 anos trabalhando no mercado de TI, liderando equipes de desenvolvimento de software em várias geografias, diversas culturas e diferentes segmentos de mercado, fui movido a fazer uma reflexão sobre as jornadas realizadas em cada contexto para transformar cada grupo de indivíduos em um time de alto desempenho. 

 

O primeiro ponto a considerar, o mais básico, é que lidar com seres humanos é muito complexo, e os desafios podem ser inúmeros. Não existem receitas universais, frameworks ou soluções genéricas que se aplicam a todos, já que somos diferentes. Esse ponto parece óbvio, mas, por muito tempo, foi desconsiderado. 

 

Tentativas de padronizar a forma de tratar pessoas era o modelo utilizado na Segunda Revolução Industrial, onde o chamado fordismo baseava-se em fazer tudo de maneira uniforme e em larga escala. A educação, o trabalho e a gestão de pessoas não considerava as diferentes competências, capacidades e necessidades de cada indivíduo. 

 

Porém, o objetivo aqui não é falar do passado e julgar o modelo fordista, pois foi por meio dele que chegamos ao momento atual, com pontos positivos e impactos negativos. Ele nos permitiu evoluir, mas será que está nos atendendo adequadamente na atualidade? E ele continuará tendo valor a partir de hoje e no futuro? 

 

A era do indivíduo

Estamos vivendo uma era na qual as novas gerações, claramente, chegam buscando cada vez mais personalização de experiências e de atendimento. Elas não querem ser tratadas como uma massa homogênea, mas como indivíduos únicos. Desejam realizar seu propósito pessoal e ter suas necessidades entendidas, compreendidas e atendidas. 

 

E em consonância com essa crescente tendência, ao longo de minha jornada, encontrei dois princípios que, quando aplicados, sempre elevaram os resultados nos times em quaisquer contextos de maneira expressiva: a humanidade e o respeito à diversidade. Todas as vezes que havia ambientes humanos e inclusivos, era notório que havia maiores impactos positivos tangíveis e intangíveis em relação a outros ambientes mais "frios e quadrados". 

 

Parece clichê dizer que é importante tratar seres humanos com humanidade, mas a realidade é que o pensamento fordista, com o seu foco no atendimento padronizado em escala, está tão impregnado na nossa sociedade que, ainda hoje, é comum tratar pessoas como números. A ideia, para muitos, é que só é possível extrair o melhor dos colaboradores por meio da inserção deles em grupos que devem ter comportamentos uniformes, que realizam atividades repetitivas, quase mecânicas, sempre seguindo regras e normas fixas. 

 

O caminho das soluções é sempre o mesmo já aprovado. Assim, ao invés de conquistar o melhor das pessoas, de fato, "tira-se o valor" no sentido de anulá-lo. Tira-se do indivíduo a oportunidade de pensar, aprender, criar, inovar. 

 

Do mindset fixo para o de crescimento 

Como consequência, acabamos reforçando em várias gerações o desenvolvimento do chamado mindset fixo que, de acordo com a PHD em psicologia do desenvolvimento, Carol Dweck, é aquele apegado a certezas, resistente a mudanças e condicionado a buscar estratégias já conhecidas para lidar com problemas. Sob o domínio desse tipo de modelo mental, a pessoa constrói visões de mundo cheias de preconceitos e tem um modo de pensar e agir estático, onde a pressão por não se aventurar e testar algo diferente é enorme. Isso faz com que ela tome cada vez menos riscos e se submeta à cultura de punição ao erro, que esteve presente em sua educação em casa, na escola e também no trabalho. 

 

Durante minha jornada ajudando na transformação cultural e digital de muitas empresas, sempre percebi o medo que muitos profissionais têm de reportar um atraso ou um problema ao seu líder, com receio de ser repreendido exatamente por ter essa cultura tão impregnada na sua personalidade. Ao não tentar coisas novas para não errar, para não serem punidos, deixaram de aprender, atrofiaram a curiosidade e se fecharam em formas estáticas de produzir e reagir aos eventos. 

 

Hoje, mais do que nunca, precisamos de seres humanos que tenham o outro tipo de mindset, o mindset de crescimento. Que, também de acordo com Dweck, é aquele que estimula o aprendizado, gosta de desafios, busca explorar novas alternativas e não tem medo de arriscar e se aventurar fora de sua zona de conforto. 

 

Criando ambientes de alta performance 

Quando me deparei com o conhecimento sobre esses dois tipos de mindset, identifiquei algo que, até então, vinha fazendo de maneira orgânica e natural e sempre deu um excelente resultado com meus times: ter interesse genuíno por cada ser humano com o qual me relaciono. Isso significa querer conhecer necessidades, desejos e dificuldades profissionais e pessoais de cada um com o objetivo de criar ambientes seguros e contextos adequados para que todos se sintam à vontade para experimentar, errar de maneira controlada e, sobretudo, para aprender. 

 

Com isso, deixamos de lado a obsessão de “tirar” o melhor de cada um e passamos a “dar” o melhor para cada um, tendo como resultado natural o desenvolvimento mais rápido dos indivíduos. Assim, todos passam a entregar melhores resultados a cada dia com base em seus aprendizados, crescimento pessoal, profissional e sua maior satisfação no trabalho. E, nesse momento, estamos criando o caminho para potencializar a capacidade dos indivíduos de conquistar uma alta performance. 

 

Porém, como estamos falando muito na esfera do indivíduo, precisamos lembrar que uma pessoa sozinha pode até gerar grandes resultados, mas que costumam ser em pequena escala. Precisamos criar ambientes onde seja possível potencializar cada indivíduo e seu time inteiro simultaneamente. Ambientes de estímulo a trocas de saberes e aprendizados, de colaboração e empatia. 

 

E, falando em empatia, há um ponto fundamental que não podemos esquecer. Assim como os indivíduos com mindset de crescimento, unidos, podem criar grandes resultados, um indivíduo com mindset fixo infiltrado nesse mesmo time é capaz de causar grandes impactos negativos. Ou seja, alguém preconceituoso e avesso a mudanças e opiniões diferentes à sua é capaz de contaminar um ambiente e desgastar uma equipe. Aqui, há outra reflexão importante: o ser humano, principalmente quando apresenta um mindset fixo, tem extrema facilidade e é muito veloz em julgar o outro, julgar atitudes, grupos e até empresas inteiras. 

 

Para lidar com esse tipo de pessoa, é necessário tentar compreendê-la, desenvolver uma grande empatia por ela e entender que, via de regra, ela não faz isso com má intenção, mas por meio de seu viés inconsciente. Seu mindset foi moldado dessa maneira ao longo do tempo, durante sua formação como membro de uma sociedade. 

 

Passa a ser necessário um esforço conjunto e muita paciência para ajudar essa pessoa a desligar o “modo julgamento” e também despertar a habilidade de ser empático. Mas a transformação desse modelo mental é possível quando há vontade do indivíduo. Para isso, podemos apresentar outros caminhos que alcancem melhores soluções olhando por perspectivas diferentes, ao invés de entrar em conflitos e em um círculo vicioso e desgastante de discussões de cunho emocional, impondo pontos de vista. 

 

Quando a equipe consegue isso, parece que a mágica passa a acontecer. Assim que os membros do time compreendem e assimilam esse novo mindset de crescimento, essa visão mais humana e menos julgadora sobre o outro emerge por meio do exercício da empatia, criando, naturalmente, um círculo virtuoso. O time entra em uma espiral positiva de conexão genuína entre as pessoas, na qual um está sempre buscando apoiar e criar oportunidades para os outros. 

 

E, nesse contexto, quanto mais diversidade houver em um time, melhores serão seus resultados, pois o diferente background de cada indivíduo enriquece a discussão com argumentos e pontos de vista distintos. Para ter um time inovador, criativo, precisamos de pluralidade, de debates entusiasmados em busca das melhores soluções, melhores otimizações e melhores resultados. E, aqui, quando cito a diversidade, é no mais amplo sentido da palavra: diferentes modelos de educação, área de formação, cor, raça, etnia, gênero, orientação sexual etc.

 

Está criado, a partir desse instante, um ambiente no qual tanto o time quanto os indivíduos estão trilhando uma jornada de aprendizado contínuo, de superação constante, de confiança e respeito mútuos, sabendo que um pode se apoiar no outro em cada desafio. De maneira muito rápida, esse time passa a ter alta performance, pois aprende a aprender, a experimentar, a se adaptar rapidamente e, assim, a melhorar a cada dia. 

 

Com certeza, em um ambiente propício ao aprendizado, cada ser humano pode se descobrir e explorar com profundidade seu potencial até atingir níveis incríveis de desenvolvimento. E, assim, será capaz de contribuir profundamente para a formação de um time com resultados de grande impacto.