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IoT: a indústria 4.0 além da automação

Por: Pimentel, Junqueira e Gasparini

IoT: a indústria 4.0 além da automação
Posted on Aug 24, 2017

No universo da inovação muito se fala em indústria 4.0. Mas o real significado desse conceito vai muito além da automação. Aqui, na CI&T, lidamos diariamente com demandas do setor industrial e, no contato com diferentes empresas, pudemos perceber que muitos dos projetos pensados e desenvolvidos na linha 4.0, considerados revolucionários, não passam de construções, na melhor das hipóteses, obsoletas. Uma atualização tecnológica apenas.

Iniciativas baseadas em tecnologias como o sensoriamento e produção autônoma para a criação de produtos mais baratos e com maior qualidade não são a verdadeira premissa da indústria 4.0. Precisamos pensar além desse modelo de negócio que remonta a década 70 - o Machine to Machine, baseado na busca por um processo produtivo que dependa menos de pessoas - e focar na verdadeira questão de nosso tempo: a quebra de uma cadeia de consumo linear, graças à digitalização das relações.

 

Revoluções industriais

Principais mudanças das Revoluções Industriais.

 

Principais mudanças das Revoluções Industriais

A indústria 4.0 pertence a um mundo altamente conectado, que não existe somente para facilitar processos ou a comunicação entre as pessoas, mas que permite possibilidades ilimitadas de captação e análise de dados e, logo, de transformação do conhecimento. Neste caso, a aplicação da IoT transforma o processo de produção como um todo. Surgem novos fluxos que vão além do parque industrial e englobam pessoas, máquinas, equipamentos, dispositivos e informações em um único ambiente virtual, formando uma rede inteligente. Em outras palavras, conectando a indústria ao seu produto sendo utilizado em campo.

IoT transforma a indústria em uma rede inteligente

 

Com IoT, o processo de produção passa a ir além do parque industrial para conectar pessoas,

máquinas, dispositivos e informações, formando uma rede inteligente. 

 

Além do sistema produtivo ganhar a possibilidade de evoluir e tornar-se mais autônomo e customizável, as empresas podem funcionar alinhadas às necessidades de um mercado cada vez mais exigente, procurando se adaptar às preferências do consumidor, aliando personalização de produtos à velocidade de entrada no mercado. Ou seja, a indústria 4.0 consiste em um novo modelo de negócio, que vai muito além do chão de fábrica e, com isso, pode promover seu próprio reposicionamento dentro da cadeia de consumo.

O setor, que até hoje apenas manufaturava produtos, agora quebra paradigmas e pensa em inovação fora do produto. A proposta é continuar o processo de produção pensando em soluções estratégicas como oportunidades de negócio. O que muda é a posição da indústria, que fica cada vez mais perto do consumidor final.

 

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A inovação além do produto

Na indústria tradicional, a inovação é uma prerrogativa dos departamentos de P&D. Todo o trabalho de pesquisa se volta para a descoberta de novos materiais e processos químicos capazes de transformar a qualidade dos produtos ou promover a automação (visando ganhos em produção, diminuição de lead time, aumento de performance dos operadores e mitigação de riscos de acidentes, por exemplo).

Essa visão fragmentada de transformação, entretanto, enfrenta uma grande barreira: a matéria já foi estudada quase no seu limite físico, criando um cenário em que são necessários investimentos milionários para alterações ínfimas, com pouco impacto na diferenciação sobre a concorrência.

Mas, na indústria 4.0, é preciso enxergar a cadeia de negócio como um todo. É necessário levar em consideração aquilo que existe antes e depois da linha de produção de forma a melhorar não apenas o processo produtivo, mas a possibilidade de reposicionamento ágil e altamente competitivo do produto, agora aliado a serviços. Construir estratégias que conectam a cadeia de ponta a ponta, ou seja, o fabricante com o consumidor, é uma dessas formas.

No setor automobilístico, por exemplo, uma opção seria o fabricante de motores se aproximar dos seus consumidores ao produzir peças capazes de notificar o proprietário sobre o momento certo de trocar o óleo devido ao tipo de uso do carro. Com sistemas simples de IoT é possível disparar notificações sobre a quilometragem ou desgaste de peças. Essas informações transformam a experiência do consumidor e podem também gerar insights ricos para o design de futuros produtos. Além disso, em conhecendo o perfil de consumo do veículo, a montadora pode inclusive realizar propostas mais adequadas de outros veículos, personalizar o atendimento nas revisões e, até mesmo, propor um preço de produto customizado na hora de nova compra.

Com isso, a relação entre indústria e cliente torna-se muito mais próxima e aquele fabricante que acreditava em inovação como uma forma de produzir mais com a mesma quantidade de recursos, agora pensa em inovação além dos limites da fábrica. Ao mesmo tempo, a indústria passa a assumir o papel de criadora do produto, buscando a individualização da relação e acabando com um problema histórico de estar longe do consumidor final na cadeia de negócio. E, assim, surge um novo formato de relacionamento em que o cliente encontra no fabricante as soluções para os seus problemas.

 

Antes, reativa. Agora, focada em estratégia

Historicamente, a indústria sofreu poucas alterações no seu modelo de negócio. Da 1ª Revolução Industrial - no século XVIII, quando se implementa a mecanização - até a 3ª - que vem até por volta de 2010 e é marcada pela automação - o setor busca continuamente a otimização da produção em escala e, assim, se afasta cada vez mais do público consumidor. Ou seja, a indústria na ponta inicial da conversa com o varejista intermediando a conversa com o cliente final.

A busca constante pela criação do melhor produto com o menor custo leva a valores que são incompatíveis com necessidades particulares. Se no varejo “o cliente tem sempre razão”,na indústria tradicional o cliente está tão distante do fabricante que não se sabe exatamente como se posicionar em relação a ele.

Ao contrário do setor de serviços, que encara mudanças de mercado a todo o momento, a indústria é avessa a riscos e evita mudanças drásticas tanto quanto possível. Nesse contexto, mesmo a automação, se desenvolve de maneira desconexa. O departamento de Tecnologia da Informação (TI) faz a gestão de dados do setor de produção; os operadores atuam focados em comando e controle e não se aproximam das outras áreas; e, com isso, as tomadas de decisões continuam sendo reativas. Ou seja, a automação está presente, mas não assume o papel 4.0.

Mas, o discurso mudou e, hoje, falamos em viver cada vez mais um modelo de indústria que, apoiado na tecnologia, está focado em construções estratégicas. Estamos falando de indústria 4.0. Hoje, o setor precisa repensar sua relação com o consumidor e o uso da tecnologia para encontrar seu lugar no futuro da manufatura, um tempo no qual só existirão dois tipos de indústria: a comoditizada, altamente descartável; ou a estratégica, capaz de transformar inteligência em matéria tangívele altamente necessária.

E isso não é futurismo. Hoje, vemos o governo alemão de Angela Merkel investindo em projetos para a indústria apoiados na tecnologia, mas focados em convergência de informação e em soluções para a criação de produtos cada vez mais estratégicos. Então, nos perguntamos: será que as empresas brasileiras precisam continuar paradas no tempo - mesmo que investindo em maquinário de ponta? Com certeza, não. Elas precisam deixar para trás um modelo ultrapassado e entender que a indústria 4.0 está muito além da automação.