Para ter uma companhia saudável, cuide das suas pessoas

Por: Adriana Lima

Para ter uma companhia saudável, cuide das suas pessoas
Posted on Feb 17, 2020

O que você vai ler aqui

  • O modelo atual de atenção à saúde está em colapso
  • A necessidade de promover o protagonismo das pessoas em relação à sua saúde
  • A lógica da atenção primária à saúde deve estar nas empresas
     

As companhias vêm enfrentando um alto grau de cobrança do mercado por resultados, produtividade e velocidade. Nesse cenário, propício ao estresse e à sobrecarga, crescem os problemas em relação à saúde de suas pessoas. Essa questão está rapidamente se tornando chave para os negócios, tanto do ponto de vista dos custos quanto dos ativos. Quem emprega não está conseguindo diminuir custos de saúde por meio de estratégias de contenção devido às assustadoras tendências demográficas e de doenças. 

 

Segundo artigo apresentado pela companhia britânica de Seguros de Saúde BUPA, 600 milhões de dias úteis são perdidos anualmente em empresas europeias devido à questões como altos índices de pressão no trabalho, envelhecimento da população e a hábitos de vida pouco saudáveis. E essa é uma tendência global. 

 

Além da perda de produtividade, as companhias já estão sentindo os sintomas de que os sistemas de saúde ocupacional existentes são insuficientes e que não conseguirão atender a essas crescentes demandas a longo prazo. Um estudo realizado pela FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) confirma essa ideia quando aponta para um aumento nos gastos médicos com saúde suplementar da ordem de 232% nos últimos 10 anos. Este índice demonstra que estamos entrando num colapso e temos que repensar o modelo atual de atenção à saúde, se quisermos um sistema funcional e vantajoso para todos. 

 

No 2º Fórum de Saúde da Mercer Marsh Benefícios, que ocorreu em São Paulo no fim de setembro, a Dra. Martha Oliveira, Diretora de Estratégia e Novos Negócios da Qualirede, fez uma comparação bastante ilustrativa do problema. 

 

Ela disse que, até hoje, os planos de saúde, no Brasil, eram vendidos como uma espécie de cartão de crédito sem limites. Ao pagar um valor mensal, tem-se acesso a todo tipo de consulta, exame e tratamento. 

 

Não preciso me alongar na argumentação para que se perceba que essa lógica é falha. Mas, como exercício, vamos imaginar que todos tivéssemos a possibilidade de fazer uma contribuição fixa mensal a um supermercado, que nos desse o direito de fazer compras todos os dias sem limite. Com certeza, o supermercado iria falir rapidamente. É isso que está acontecendo com o sistema de saúde suplementar no Brasil.

 

Queremos fazer com que a saúde privada no País seja sustentável e possamos continuar nos beneficiando dela como companhias, colaboradores e colaboradoras? Se sim, então, temos que mudar a cultura acerca do plano de saúde. Temos que entender que cada pessoa é protagonista na sua saúde e que seus hábitos têm impactos diretos, de modo positivo ou negativo, para ela, para a empresa e para o plano de saúde.

 

O foco deve passar da doença para a prevenção
 

Sobre o assunto, o Dr. Drauzio Varella, renomado médico oncologista e escritor, argumenta que é preciso promover mudanças. Para ele, o foco deve ser o de adotar um modelo de atenção primária à saúde nas empresas para apostar nos cuidados básicos e essenciais de saúde antes do aparecimento da doença. Essa é, sem dúvidas, uma estratégia efetiva e simples para trazer sustentabilidade aos sistemas de saúde. “É preciso focar na prevenção e não na doença. Ao reduzir os riscos das enfermidades, a medicina preventiva, consequentemente, reduz os gastos do setor", disse em sua participação no mesmo evento. E os números confirmam o argumento. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 85% das enfermidades ou problemas de saúde podem ser evitados ou resolvidos dentro das companhias, em espaços preparados para atendimentos básicos. 

 

Infelizmente, a maioria dos empregadores ainda concentra a atenção ao tema "saúde" quando se trata de colaboradores e colaboradoras em licença médica e/ou incapacidade de curto ou longo prazo, com o objetivo de reintegração ao processo de trabalho o mais brevemente possível. Esse pensamento negligencia o fato de que ambientes corporativos que não promovem a saúde estão muito mais propensos a ter profissionais com enfermidades. Pensando em classificação, nesses ambientes, profissionais que estão em baixo risco de doença podem, com facilidade, migrar para categorias com risco mais elevado. Isso me lembra o pensamento predominante de que saúde é igual a combater a doença. Não é assim que deve funcionar.
 


Que tal uma mudança de mindset? Para ter ambientes - e companhias - saudáveis, devemos focar na saúde e na prevenção de doenças e não esperar o adoecimento para o cuidado. Se eu não me alimentar e dormir bem, se não fizer exercícios físicos, se não mantiver bons hábitos, com certeza, vou adoecer. Por outro lado, se eu me cuidar, certamente, reduzirei o volume de consultas médicas e atendimentos de urgência e poderei evitar o aparecimento de diversas doenças crônicas. É um ganha-ganha. Ganha o colaborador ou colaboradora com mais qualidade de vida, ganha a companhia e o sistema de saúde se sustenta. 

 

Falando especialmente em atividades físicas, devemos lembrar que, com o acesso fácil a meios de transporte, como o carro e a artifícios que economizam nossos movimentos, como o controle remoto e o celular, não precisamos mais fazer esforço físico algum. Essa consciência da inércia e dos males que o sedentarismo pode causar à saúde nos força a arrumar mecanismos e horários para movimentar o corpo. 

 

Você sabia que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda andar 30 minutos diariamente para que possamos garantir o bom funcionamento do nosso corpo? Com certeza, poucas pessoas, hoje em dia, seguem esta orientação. O protagonismo implica em saber que eu preciso monitorar a minha saúde e não esperar que a empresa ou o plano tenha este papel. 

 

Mas a tecnologia pode ser nossa grande aliada em melhorar hábitos. Hoje, temos diversas estratégias que podemos, e devemos, utilizar como os aplicativos que acompanham e estimulam a prática de atividades físicas, que nos ajudam com alertas de boa alimentação ou que fazem o monitoramento do sono. Outros recursos que estão acessíveis nas empresas, e ainda são subutilizados, são programas de apoio e atenção à nutrição e educação física, academia in company, incentivos à atividade física ao ar livre etc. 

 

Atenção primária à saúde nas empresas

 

Além do protagonismo do colaborador ou colaboradora em relação à sua saúde, algo que está sendo implantado nas empresas é a Estratégia de Atenção Primária à Saúde. Essa estratégia contempla um programa de atendimento básico, realizado por médicos generalistas nos ambulatórios que funcionam dentro das companhias. Esses ambulatórios servem como espaço de promoção de saúde, por meio da consulta imediata, e de triagem dos problemas que realmente devem ser tratados com apoio do plano. 

 

Essa pode ser uma alternativa mais adequada - e sustentável - ao modelo de gestão de saúde atualmente adotado pelas companhias. Porém, exige um redesenho da estrutura de assistência à saúde, com a contratação de profissionais e preparação dos espaços, e uma mudança de cultura nas companhias que devem estimular o usuário final a ter atenção à sua saúde. À empresa também cabe entender o tema não apenas no que tange à contenção de gastos, mas principalmente como ponto estratégico de manutenção de um ambiente salutar e propício à geração de impacto de negócio.

 

De acordo com Dra. Martha Oliveira, devemos educar nossa população, referir e construir uma nova proposta de valor para os colaboradores para aumentar a confiança neste novo modelo voltado à prevenção. "O objetivo da procura ao médico na empresa deve ser para saber como eu posso melhorar minha saúde e não somente como eu faço para sarar”, disse ela. 

 

Sem dúvidas, é uma questão de aculturamento nas empresas que deve passar pelo remodelamento do fluxo de atendimento ao colaborador. No Fórum da Saúde, a Dra. Antonietta Medeiros, Gerente de Produto Saúde da Mercer Marsh Benefícios, trouxe uma nova prática que está sendo adotada por algumas companhias: além de apostar em tecnologia e em trazer médicos e médicas para atendimento dentro da empresa, muitas corporações estão estendendo o benefício das consultas a familiares.

 

Importante salientar que, quando adoece, a pessoa não somente gera gastos no seu plano de saúde, mas impacta a companhia por queda de produtividade, pelo absenteísmo, presenteísmo e por afetar a qualidade de vida das pessoas e de suas relações. Quando fica doente, não somente o indivíduo é afetado: colegas podem ficar sobrecarregados, sua família e a companhia. 

 

Por isso, o foco na saúde deve ser prioritário para todos nós! Espero que este artigo tenha trazido reflexões sobre os impactos da saúde e da falta dela para cada colaborador e para o ambiente em que está inserido. A mudança de mindset em direção ao autocuidado e à promoção dele trará resultados em médio e longo prazos, mas devemos começar hoje. Então, deixo a provocação: já se programou para sua caminhada diária e um jantar saudável no final do dia?