Product discovery orientado pelo Design

Por: Vitor Hugo Pacheco

Product discovery orientado pelo Design
Posted on Aug 21, 2019

 

O que você vai ler aqui:

  • Qual é a importância de uma jornada de product discovery?

  • As 4 competências de Design necessárias para o desenvolvimento de produtos de sucesso 

  • Como desenvolvê-las nos seus times

 

Desde que comecei a estudar e trabalhar com Design, percebo que a etapa de descoberta é tratada pela maioria dos profissionais da área sem a sua devida importância, com descaso e indiferença. Nos projetos iniciais da faculdade de Design Industrial, inclusive, o grande foco estava na etapa de solução, em encontrar novos conceitos e, a partir disso, gerar dezenas de alternativas para um novo produto. Afinal, essa seria a entrega final para o professor. 

 

Por isso, acabávamos nos concentrando nessa etapa de solução - que é a transição do discovery para o delivery - e passando muito superficialmente pela etapa de descoberta. O resultado era uma profusão de produtos irrelevantes, sem qualquer diferencial. 

 

Ingressando no universo das empresas de tecnologia, encontrei um cenário um pouco diferente, no qual o foco estava na construção do produto. O objetivo passou a ser definir rapidamente qual seria a solução mais viável dentro de um prazo utilizando a melhor tecnologia disponível. Mais uma vez, este foco mostrou não ser o mais adequado, uma vez que levava a produtos distantes da expectativa dos usuários. Projetadas sem um entendimento profundo dos problemas de negócios e do consumidor, as soluções pareciam apenas atender às ideias da própria equipe técnica.

 

Isso porque, sem uma etapa de discovery bem realizada, não há como saber aonde chegar e nem como fazer isso. Ambas as experiências de projeto descritas tinham em comum a falta de um método/processo claro e consistente para a etapa de descoberta do produto antes do desenho de uma solução e, principalmente, antes de construí-la.

 

Para que um time de desenvolvimento chegue a um processo maduro na etapa de descoberta, não basta que seja capaz de desenhar lindos frameworks com todas as suas etapas e critérios de aceite. É preciso que todo o time tenha algumas competências naturais na área do Design, pois um bom discovery deve ser orientado por essas características.

 

A seguir, falarei dessas competências necessárias para uma jornada de product discovery orientado pelo Design e darei algumas dicas para desenvolvê-las nos times.

 

Competências de Design: qualidades para realizar descobertas de produto

Entre as diversas competências necessárias para o Design, uma área ampla de conhecimento sobre projetos, vou me ater ao detalhamento das 4 que dizem respeito ao tema deste texto, as que mais contribuem para a descoberta de produtos. São elas:

 

1. Visão Sistêmica

Para a realização de uma etapa de discovery adequada, não basta olhar somente o problema a ser tratado, deve-se ter atenção ao contexto, aos fatores que impactam a solução. Nenhum produto digital é utilizado isoladamente, dentro de um quarto. Produtos estão em um contexto de uso

 

Além disso, dentro de uma organização, um produto faz parte de um todo, se relacionando constantemente com outros produtos ou serviços da empresa

 

Como o time se desenvolve: utilizando ferramentas para que todos acessem informações de negócios e dos usuários. Será necessário também realizar sessões colaborativas com momentos de contextualização.

 

2. Criatividade

O olhar deve ser o de construir pontes entre necessidades, ideias e referências. Será necessário ter o máximo de referências possível para realizar novas associações e combinações que levem ao melhor resultado.

 

Neste ponto, é importante salientar que ter criatividade não é ser brilhante, genial, mas sim ser capaz de criar novas conexões que permitirão desenvolver interações diferentes da que já existiam. Portanto, é preciso ter um pensamento horizontal, aberto e buscar referências para construir o novo

 

Para profissionais de perfil técnico, porém, pode ser mais difícil desenvolver a criatividade, pois geralmente se tornaram muito qualificados em processos lineares de resolução de problemas. Tal desenvolvimento é importante em muitos momentos do projeto, mas não durante o discovery. Então, será necessário apoiar esta mudança de chave.

 

Como o time se desenvolve: incentivando o acesso a novidades, novos conteúdos, sejam soluções tecnológicas ou informação cultural. Outra boa maneira de apoiar o time na aquisição desta competência é realizando sessões de cocriação com frequência, pois os exercícios estimulam o raciocínio conectivo.

 

3. Empatia

A necessidade aqui é a de entender a fundo a realidade do outro para se colocar no lugar e perceber o que ele precisa. Não se trata de uma buzzword para definir algo legal nas relações pessoais, mas de saber, de fato, qual é o contexto de uso em que uma pessoa estará interagindo com a sua solução

 

Nossos usuários não são se limitam a executar tarefas, mas são pessoas com características diferentes e em contextos de vida diferentes. Se conheço e entendo as necessidades que essas pessoas têm, posso, de fato, ajudá-las a realizar aquilo que precisam. Sem isso, estaremos fadados a - como o meu segundo exemplo no início deste texto - projetar para nós mesmos, para líderes de negócio ou até mesmo para ninguém.

 

Como o time se desenvolve: saindo da zona de conforto, da mesa, da sala, do Jira ou o qualquer que seja sua bolha. Não falo, necessariamente, uma saída física para abordar usuários. É possível ter mais elementos com os quais trabalhar ouvindo uma entrevista, por exemplo. Sendo assim, é importante que cada pessoa encontre formas de fazer isso, seja ouvindo entrevistas, lendo relatórios de conversas com consumidores ou até mesmo participando, como ouvinte, de interações com os usuários.

 

4. Experimentação

É o aprender fazendo. É preciso começar a fazer para aprender caminhos e limites. Testar, testar, testar antes de colocar todo o esforço em uma solução incerta.

 

Quando comecei a escrever este tópico, utilizei a palavra Prototipação, mas preferi Experimentação, pois nos coloca mais distante de algo físico e mais próximos de um mindset. É disso que se trata. Experimentar é como ir a uma sorveteria, receber uma colherzinha e provar antes de decidir em qual sorvete queremos investir nosso momento de sobremesa.

 

Importa menos o como será feito, mas muito mais o pensamento de realizar de forma simples e rápida para comprovar se o objetivo será alcançado. Nada de soluções arquitetônicas robustas, interfaces detalhadamente planejadas e requisitos para desenvolvimento. Estamos falando do mínimo para validar se nossa proposta conseguirá atingir o objetivo de negócio determinado.

 

Como o time pode se desenvolver: experimentando. Não dá para ser diferente. Enquanto um time não começa a rodar experimentos e entender como é valioso e decisivo aprender em ciclos curtos antes de partir para soluções robustas, não terá sucesso. É preciso sair do papel e começar a gerar dados que comprovem nossas hipóteses.

 

Os times de desenvolvimento precisam embarcar em novos processos, evoluir constantemente e ser capazes de se adaptar às mudanças, às novas necessidades. O Design é um campo do conhecimento que trabalha com essas constantes mudanças e, por isso, tem muito a contribuir.

 

Em um mundo em constantes transformações, onde os desejos dos consumidores são inconstantes, equipes de desenvolvimento de produtos precisam estar sempre prontas a encontrar novas formas de aprender e seguir em frente. A forma como trabalhamos hoje pode precisar ser diferente amanhã. Acostume-se a isso. Tome fôlego, ache uma pausa para aprender e então faça diferente!