O que eu aprendi sobre transformação digital viajando pela China e pelo Japão

Artigo publicado na Época Negócios.

O que eu aprendi sobre transformação digital viajando pela China e pelo Japão
Posted on Jul 8, 2019

Depois de aproximadamente 20 dias, mais de 400 horas fora de casa e visitas a sete cidades entre Japão e China, enfim retornei ao Brasil e quero compartilhar os inúmeros aprendizados que absorvi ao longo dessa (extensa) jornada.

 

 

Foi uma experiência única, que me trouxe uma série de novos conhecimentos. Porém, não foi nada fácil. Afinal, tive que me deparar e superar alguns obstáculos importantes: a cultura, que é totalmente diferente da qual estamos acostumados, além do idioma, já que não falo japonês e muito menos mandarim. Só consegui estabelecer diálogos em inglês durante as reuniões, pois era o único momento em que as pessoas falavam a língua. Além disso, o Brazil Group (foto acima), grupo que integrei – composto por mais de 30 líderes, pessoas empreendedoras, executivos e executivas – teve que lidar com alguns imprevistos que impactaram significativamente a viagem, como voos cancelados devido ao mau tempo e uma viagem de ônibus de mais de três horas para chegar ao Alibaba.

 

Apesar dos percalços, ouso dizer que esse episódio e, principalmente, a forma como o grupo conseguiu contorná-lo, valeu como um “MBA”, pois exigiu flexibilidade, adaptabilidade, gestão e, sobretudo, resiliência. Muita resiliência. Sou grato por fazer parte desse grupo, que contribuiu muito para o meu crescimento e desenvolvimento como profissional.

 

O meu intuito com este artigo é o de compartilhar algumas experiências e conhecimentos que absorvi durante a viagem e que podem ser implementados em nosso contexto, aqui no Brasil. Primeiramente, acho importante destacar que estudar sobre a China vai muito além de analisar as empresas locais e a forma como fazem negócio. Se você quer entender, de fato, a cultura chinesa é importante deixar de lado conceitos pré-concebidos e ter disposição a reaprender tudo, desde redefinir como pensamos em inovação e como as empresas e startups podem gerar receita além do óbvio e em escala.

 

Temos que ter a humildade para reconhecer, assimilar e aceitar que as companhias chinesas estão realmente inovando - em tecnologia, produtos e serviços, inteligência artificial, data e digital payment, entre outros - e não apenas copiando um modelo. As empresas que estão prosperando são companhias que estão realmente trabalhando duro para isso e, consequentemente, colhem resultados exponenciais.

 

Estamos falando de organizações que estão se tornando unicórnios em, no máximo, quatro anos – um feito e tanto. E como chegam lá tão rapidamente? Não concordo com o modelo porque acho excessivo, mas, na China, eles utilizam o “996”, ou seja, trabalham 12 horas por dia, das 9h às 21h, em seis dias da semana. É exaustivo, mas é uma pequena amostra do comprometimento e das ambições da sociedade chinesa para prosperar e ter sucesso.

 

Aqui, compartilho alguns insights que podem ser aplicados em nossa realidade:

 

Tenha ousadia e pense grande

 

Em 12 meses, há uma mudança radical de impacto de e no negócio. É impressionante ver como o crescimento das empresas chinesas é exponencial! Ressalto que, diferentemente das companhias tradicionais que fazem o seu balanço anualmente para projetar o forecast para o próximo ano, na China, o padrão é totalmente diferente. A cultura chinesa não leva em conta o crescimento passado/anterior já que a projeção e as oportunidades são exponenciais. Assim, trabalhe em uma agenda ousada e realmente grande para trazer em curto prazo (12 meses) resultados expressivos de crescimento e negócio.

 

Tenha foco

 

Ter foco é essencial para o seu sucesso, saber o que não fazer, faz com que você chegue ao seu objetivo mais rápido. Todas as lideranças das empresas com as quais conversei têm muito foco em resolver problemas que irão trazer grandes resultados para empresa. Não desvie o seu olhar! Escolha algo ousado e grande e faça de tudo para dar certo.

 

Construa ecossistemas


O valor está na cadeia que você cria. Para a sobrevivência de sua empresa, é essencial entender o poder desse novo modelo de negócio e do uso da tecnologia para conectar pessoas, organizações e recursos em um ecossistema interativo, no qual incríveis quantidades de valor podem ser criadas ou trocadas. Ao entender essa mudança radical na economia e nas relações, as companhias têm à sua disposição uma quantidade de dados inimaginável, capaz de trazer valor para consumidores e provedores em escala e em tempo real.

 

 

Mindset competitivo

 

Uma coisa é indiscutível: muitas startups conhecem a dinâmica “winner-take-all”. Essa dinâmica é muito mais intensa na China. Ser o primeiro, rapidamente, dominar o mercado, a cadeia e o ecossistema é o campo de jogo que você precisa jogar.

 

 

Faça rápido

 

Informação não é poder, execução é poder. Isso resulta em muito mais tentativa e erro - assim como ciclos rápidos de produto - a medida que as empresas tentam ganhar mercado entre si rapidamente. Essa execução veloz da experimentação, por sua vez, leva a uma mudança muito mais rápida, a uma disposição para aceitar e permitir 'mortes' mais rápidas em experimentos e até mesmo em empresas – se o risco é grande, o potencial de sucesso é ainda maior!

 

 

Inteligência artificial e big data


“To make it easy to do business anywhere”. A jornada do consumidor é integrada, não existe pensamento isolado. Online e offline jogando junto para entregar a melhor experiência e, para isso, dados - muitos dados - e IA para personalizar e customizar produtos, serviços e marketing. Tecnologia de ponta combinada com a utilização de dados precisos e assertivos são essenciais para a estratégia de qualquer empresa que almeja prosperar e entregar experiências mais personalizadas.

 

Para você ter uma ideia, essa integração gera para o Alibaba mais de 120 mil transações por segundo. Vale ressaltar que a otimização da eficiência industrial, a redução na perda de produção e a melhora na proporção do mix de produtos e serviços são fatores fundamentais para o crescimento substancial do negócio.

 

 

Velocidade

 

A velocidade recorde com que novos negócios estão sendo gerados e atualizados é incrível. O mindset dos executivos é 'estamos em guerra'. Isso me lembrou do livro Blizscalling, escrito por Reid Hoffman, que aborda a tática de guerra de agir rápido ao mercado a fim de não espaço para que a concorrência cresça. Priorize velocidade e eficiência mesmo em cenários incertos.

 

 

Digital Payment Ecosystem

 

“Inclusive financial services bring the world more equal opportunities”. Alibaba é pioneira em pagamentos móveis, micro empréstimos (sem intervenção humana) e carteira digital. Ali Pay hoje é um dos dois maiores meios de pagamento móveis da China. A facilidade com que um pequeno negociante ou um indivíduo tem seu crédito analisado é sensacional. Em aproximadamente três minutos uma pessoa preenche um formulário pelo aplicativo e em segundos recebe a resposta sobre a viabilidade do crédito requisitado. 

 

Aqui entra em cena um algoritmo que conta com múltiplos pontos de análise: demografia, capacidade de pagamento, histórico de crédito, mídia social e comportamento.

 

Independentemente da sua condição social, o indivíduo pode ter acesso a inúmeros serviços. Esta análise multifacetada recompensa determinados comportamentos - uma verdadeira gamificação da vida real.

 

Vale ressaltar que o pagamento via mobile e reconhecimento facial também é uma realidade aqui facilitando a jornada do consumidor E2E e O2O. Recentemente, o Facebook lançou a “Libra”, sua moeda virtual, assim como o WeChat, espécie de WhatsApp chinês, tem se expandido para outros países, inclusive o Brasil. As oportunidades são múltiplas e não param de surgir!

 

Acredito que as empresas chinesas podem servir tanto como fonte de inspiração a curto prazo, quanto como uma fonte formidável de competição no futuro. Líderes e empreendedores brasileiros deveriam se debruçar sobre o modelo chinês a fim de aperfeiçoarem seus modelos de negócios para alçar voos mais altos.

 

Espero que esse artigo sirva como inspiração e como um ponto de partida para que as organizações discutam novos formatos e formas de utilizar as tecnologias para gerar cada vez mais impacto.

 

 

Originalmente publicado em Época Negócios.