O impacto da transformação digital na educação, nas companhias e na sociedade

Por: Cesar Gon

Cinco pessoas estudando com livros ao redor de uma mesa.
Posted on Jul 15, 2019

 

O que você vai ler aqui:

  • Desafios e aprendizados no processo de transformação digital da Ânima

  • Como será a educação do futuro?

  • 4 pilares fundamentais para a reestruturação das companhias para o digital

 

 

Sou fascinado pela capacidade que a transformação digital tem, de fato, de mudar o mundo. A aceleração do desenvolvimento tecnológico que culminou no nascimento de uma nova era, a era digital, exponenciou o potencial humano de realizar, de empreender, de transformar o ambiente que nos cerca à medida que ampliou as nossas possibilidades de criar conexões e de aprender e gerar conhecimento. A cada dia, nos tornamos mais capazes de construir uma sociedade melhor, mais produtiva, mais eficaz em solucionar os problemas que nos afligem, que afligem a humanidade.

 

É exatamente por esse fascínio que achei tão bacana dividir com Daniel Castanho, fundador e presidente do conselho do Grupo Ânima Educação - uma das gigantes do setor no País -  a bancada de um webinar realizado no início de junho pela CI&T, em conjunto com a HSM, sobre o impacto da transformação digital na educação. Daniel costuma dizer uma frase que gosto muito: "o desafio maior da Ânima é o de transformar o Brasil pela educação". Gosto por ser um belo True North, que se encaixa perfeitamente no momento em que vivemos e também porque se alinha ao nosso propósito enquanto empresa. A CI&T, na outra ponta desse desafio de transformação da sociedade, tem como propósito ser um agente transformador para destravar negócios, tecnologia e, principalmente, o potencial das pessoas para a construção desse País melhor, de um mundo melhor. 

 

 "O desafio da Ânima é ser protagonista na transformação do Brasil pela educação. Mas para transformar o Brasil pela educação, temos que transformar a educação no Brasil."

Daniel Castanho, no webinar realizado pela HSM



 

Quando fala em "transformar a educação", Daniel se refere justamente a adaptá-la às pessoas despertas para seu potencial. Como ele bem lembrou no nosso papo, não podemos oferecer aos alunos o modelo vigente até hoje de docentes que detém a sabedoria e ensinam por monólogos, passando o conhecimento em um formato top-down. Isso já não funciona. As pessoas em sala de aula não são mais seres passivos, são mais informadas e questionadoras. Ativas na construção do próprio conhecimento e buscam nos docentes a figura de alguém capaz de instigar e orientar na descoberta das respostas, mas também de inspirar a realizar seu propósito.   

 

"Esse cenário todo de educação vai se transformar completamente, vai ser muito distinto do que é hoje! Não dá para gente oferecer a mesma coisa para todo mundo. Todo mundo que entra no curso de Administração, acabar fazendo o mesmo curso de Administração. É o aluno quem tem que escolher a trajetória dele, as competências que ele quer adquirir e que fazem sentido para ele. É a customização! Esse é o desafio que temos hoje."

Daniel Castanho

 

Vejo o mesmo desafio nas empresas. Elas têm nas suas pessoas uma enorme riqueza de possibilidades, de potenciais, de diversidade de mundos, ideias e conhecimentos que podem ser catalisadores de criação, de inovação, de disrupção tão caros ao novo mercado digital. Mas quando você olha para dentro dos ambientes corporativos, você percebe que não há espaço para esse potencial se realizar.

 

Então, minha visão sobre transformação digital nas empresas é quase uma continuidade dessa mudança que se faz necessária no modelo educacional. Enquanto, na educação, precisamos ser capazes de atender e preparar jovens para essa era digital, nas corporações, devemos construir ambientes nos quais as pessoas se sintam apoiadas e estimuladas a continuar aprendendo, experimentando e se desenvolvendo para criar o novo, para gerar resultados que tragam impactos para o negócio e para a sociedade. É esse o modelo de escola e de companhia que farão sentido a partir de hoje. 

 

Traçado o paralelo, neste artigo, me dedico a trazer um pouco sobre os desafios e aprendizados da bem-sucedida jornada de transformação digital da Ânima, que está em curso com apoio da CI&T e que pode ser de grande utilidade para empresas de qualquer setor da economia que enfrentam, hoje, seus processos. Apoiado na conversa com o Daniel, trago um rápido olhar sobre as necessidades e especificidades da área da educação no novo contexto digital e algumas das nossas apostas para o futuro do setor.

 

A transformação digital da Ânima

 

A conexão pelo propósito entre Ânima e CI&T aconteceu já nas primeiras reuniões - em fevereiro de 2018 - para desenhar, juntos, o que viria a se tornar uma exemplar e corajosa jornada de transformação digital. Já de início, todos tínhamos a clareza de que o objetivo era oferecer a melhor e mais qualificada experiência possível no processo de geração de conhecimento, de formação de pessoas. Sabíamos que, para isso, a Ânima precisava ter a capacidade de desenvolver e entregar soluções que atendessem às necessidades dos seus alunos com agilidade e, sobretudo, de melhorar essas soluções continuamente. 

 

Para a Ânima, era preciso realizar uma complexa atualização do coração tecnológico da companhia. Mas a necessidade ia muito além da tecnologia: era a de realizar uma transformação digital que passava, necessariamente, por uma profunda mudança cultural, estrutural e de processos. Bastaram algumas reuniões e uma provocação a respeito do que realmente solucionaria o problema do aluno para que o olhar da Ânima sobre o foco das discussões, o problema real a ser tratado, começasse a mudar. A necessidade era a de realizar uma profunda transformação digital.

 

 "A gente precisava mudar, ser mais ágil. Uma ideia dentro da Ânima demorava um ano para ser implementada. Não conseguiríamos transformar nosso modelo de educação assim. Precisamos de um parceiro para pensar no futuro, para estar junto nessa transformação interna. E realmente a gente [Ânima e CI&T] fez isso."

Daniel Castanho

 

Era claro, em cada alta liderança da Ânima, no board, que havia uma enorme vontade de fazer acontecer e, sobretudo, muita coragem para enfrentar o caminho árduo de realizar as profundas mudanças culturais, estruturais e de processos da companhia. Para mim, ter a alta liderança comprometida já significa ter a metade do jogo ganho.

 

Isso porque, exatamente por ser penosa, nenhuma transformação digital se sustentará em médio prazo sem a convicção das lideranças de que o processo é fundamental. Esse deve ser o ponto de partida em qualquer empresa. Se você não tiver o CEO, o board, principais líderes de fato apostando que é necessário realizar essa tradução de companhias tradicionais, dos modelos de gestão e da visão de tecnologia para o século digital, o processo vai fracassar.

 

 

A transformação começa pelas lideranças

 

Mas se trata apenas de ter a convicção da necessidade do processo. As lideranças precisam mergulhar nele, já que um novo modelo de gestão também precisa ser estabelecido nas companhias. Isso significa que, nós, líderes, precisamos traduzir para o digital, também, a nossa forma de pensar. Assim como fiz com a Ânima na ocasião, aqui, ponho na mesa de todas as companhias um imenso desafio. 

 

O mindset que ainda conduz as companhias é o do comando e controle, predominante no século XX e por meio do qual, nós, que obtivemos sucesso e hoje lideramos as empresas, nos formamos. Aprendemos com excelência a controlar, a saber bastante sobre o nosso setor, a errar pouco. Isso de fato resultava em boas carreiras. 

 

Aí você vira a chave para o século digital, onde não é mais sobre controlar, é sobre inspirar, é sobre propósito. Não é mais sobre saber mais do que time, é sobre saber criar um ambiente de multidisciplinaridade, onde o potencial daquele time aconteça com empatia, com respeito a ideias, com a diversidade, com generosidade para trocas e construção da inteligência coletiva na companhia. Isso porque, por mais genial que seja, nenhuma pessoa em posição de liderança é capaz de alcançar, por si só, o valor que a soma das ideias de suas pessoas pode gerar.

 

Estamos no século do Beta, da experimentação, do aprendizado rápido, dos ciclos curtos para entender a necessidade e as ambições de cada um dos seus clientes, dos seus alunos, dos stakeholders, de qualquer perspectiva da sociedade. A nova liderança precisa aprender a colaborar, a dividir, a conduzir, a inspirar, a apoiar seu time e entender que o erro é inevitável e necessário na busca pela melhor solução

 

Aqui, vejo novamente a correlação entre o ambiente colaborativo e os espaços de geração de conhecimento. Na CI&T, temos a formação de lideranças para o novo mindset digital e novo formato de atuação como um dos principais pilares, o Lean Leadership. Tanto que desenvolvemos uma metodologia específica para isso - articulando a filosofia de gestão Lean com o Agile e princípios de Design - que é aplicada dentro de nossos muros e com clientes, como a Ânima, como peça fundamental do processo de transformação digital. Não me estenderei nesse tema por já termos à disposição no nosso blog vasto material dedicado ao assunto. O importante, aqui, é sublinhar a relevância de preparar líderes para o digital porque serão responsáveis por direcionar, inspirar e suportar para que a transformação digital aconteça e traga impactos positivos para os negócios com velocidade. 

 

"A alta direção das companhias tem que acordar e pensar 'o que eu estou fazendo de errado?' Está trabalhando errado, está formando errado, tem uma cultura errada! Na década de 1980, as empresas criaram as universidades corporativas e, hoje, eu acho que a gente tem que criar as empresas universitárias. Temos que criar um ambiente de aprendizado contínuo e permanente onde você tem que ter tolerância ao erro. Eu vejo a CI&T, hoje, não como uma empresa de tecnologia, mas como uma capaz de mudar efetivamente a cultura das empresas."

Daniel Castanho

 

Um paralelo na sala de aulas 

 

Voltando à correlação entre o ambiente corporativo e as salas de aula, sendo um a extensão do outro, a transformação que deve acontecer nas companhias do setor da educação são ainda mais profundas. Já que não apenas devemos mudar a gestão nessa direção da colaboração, do aprendizado e da tolerância ao erro, mas também a forma como pensamos o serviço e os produtos oferecidos ao aluno

 

Sobre o assunto, Daniel fez uma interessante comparação: a diferença entre um chefe comando e controle e um líder que inspira, que provoca o melhor nos times, é exatamente a mesma entre um mau professor e um bom professor.

 

"O desafio que a gente tem na gestão é exatamente o mesmo que a gente tem dentro da sala de aula. Você tem que deixar de trabalhar com comando e controle e efetivamente trabalhar em empoderar, em acreditar, confiar e em avaliar. Mas a avaliação não pode ser punitiva e não deve ser para o professor. Deve ser para o aluno, deve ter feedback. A prova não serve para nada sem feedback. Assim como os alunos têm que ter o desejo de receber feedback, a gente deveria ter o desejo dentro da empresa de receber o feedback e falar: onde eu preciso melhorar?”

Daniel Castanho

 

As empresas do setor precisam, então, realizar a transformação digital não apenas para mudar suas lideranças, sua cultura, suas estruturas e forma de operar mas, sobretudo, para formar suas pessoas, desenvolver em docentes as características de líderes. Para oferecer ao aluno uma experiência que faça com que ele se motive, se engaje, com que aprenda e se desenvolva, o professor ou professora tem que vivenciar na empresa essa mesma experiência. Essa é a direção para onde aponta o futuro da educação, na direção de destravar o potencial das pessoas para trazer impactos positivos para a sociedade

 

 

4 pilares da transformação digital

 

Voltando agora ao processo em si, acreditamos que, para transformar uma companhia estruturada segundo o modelo rígido que dava escala corporativa no século XX nessa nova estrutura voltada para a colaboração e o aprendizado, será necessário redesenhar a base sobre a qual a estratégia está montada. Para nós, essa base é formada por quatro pilares fundamentais:

 

1. Centralidade do cliente: as empresas precisam, de fato, organizar suas ações, decisões, dados e estratégias em função dos seus clientes. Partindo do foco no cliente, ouvindo-o, analisando sua jornada e identificando suas dores por meio de técnicas e ferramentas da nossa metodologia Lean Digital, a Ânima conquistou resultados de impacto de negócios já nos primeiros meses do processo de transformação digital. Por exemplo, uma redução do Lead Time de desenvolvimento de novas soluções digitais em 70% e um importante aumento nos níveis de satisfação (Net Promoter Score, ou NPS) dos alunos. 

 

2. Redesenho estrutural: para alcançar a agilidade do digital, as companhias precisam redesenhar seus departamentos em squads, ou equipes autônomas, multifuncionais e multidisciplinares, responsáveis por um fluxo de valor, uma solução que resolva alguma necessidade do cliente de ponta a ponta. Essa é uma peça inegociável do processo de transformação porque só por meio dessa nova engine, onde você tem profissionais de tecnologia, marketing, educação, negócios, é possível fazer essa diversidade funcionar. É assim que sai a mágica da inteligência colaborativa e coletiva da qual já falei no início deste artigo.  

 

Neste ponto, é impressionante ver como a Ânima abraçou o novo formato e redesenhou seus departamentos e equipes. Apesar de todos os grandes desafios implicados nessa reestruturação, a alta camada executiva e colaboradores e colaboradoras da companhia seguiram como excelentes alunos o rigor dos métodos e a disciplina necessária para que o processo que construímos juntos avançasse com velocidade. 

 

3. Cultura da experimentação: as empresas classicamente são desenhadas para você não errar ou punir o erro de uma maneira exemplar, e isso joga completamente contra a cultura de aprendizado baseado na experimentação fundamental, no digital. Isso porque é impossível prever os movimentos do mercado e dos consumidores neste ambiente. Testes são imprescindíveis, e erros, inevitáveis. 

 

Porém, para quem ainda se assusta com a nova ordem de "olhar erros como oportunidades", há uma boa notícia. Hoje, temos ferramentas, tecnologia, métodos e processos de design e de colaboração que nos dão uma exponencialidade na capacidade de resolver problemas que não existiam há poucos anos. Delimitar o escopo para o erro, prototipar soluções em MVP (Minimum Viable Product), testá-las em ciclos curtos, aprender e corrigir rumos é o novo formato de operar. 

 

 "O que vocês [CI&T] estão nos ajudando a fazer é estruturar uma empresa, uma instituição para que a gente possa Walk the Talk. O que a gente faz é dar autonomia, é ajudar a entender que todo mundo pode ter o chapéu de professor ou aluno."

Daniel Castanho

 

4. Moon shooting, ter impacto como guia: As empresas precisam trabalhar com objetivos mais agressivos, mais audaciosos. Não para daqui a 10 anos, mas para daqui a três meses. É a cultura de sempre buscar mais do que parece possível. Neste ambiente digital que força aprendizado, que tira as pessoas o tempo todo da zona de conforto, é uma característica que precisa ser adotada. Então, trace seus objetivos sempre mirando alto, sempre buscando os impactos de negócio que você quer alcançar e siga na direção do propósito da sua empresa e de fazer realmente diferença positiva no seu entorno. 

 

É como falamos sobre a CI&T e a Ânima ao longo deste texto. Nosso propósito é destravar o potencial das pessoas e das empresas rumo à melhor versão delas, buscando entregar valor para a sociedade e construir um mundo melhor. Nossos resultados e satisfação dos nossos clientes mostram que temos acertado bastante. Quanto à Ânima, as novas práticas já servem de exemplo não só para outras empresas do setor, mas para todas aquelas que entenderam que buscar o desenvolvimento de suas pessoas é o grande caminho

 

"O que a gente [Ânima e CI&T] está fazendo é algo como um grande laboratório que pode servir de exemplo para outras empresas. Não só instituições de ensino, falando especificamente na educação, mas a HSM como uma empresa de educação corporativa, por exemplo, pode levar isso para o mercado e influenciar outras empresas."

Daniel Castanho